O limite entre uma disputa boa para os negócios e aquela em que predomina a busca do resultado a qualquer custo é sutil. Entenda como a competição saudável melhora seus resultados

Competição dentro da mesma equipe está errado”, costuma dizer Abilio Diniz. O empresário, que faz parte do conselho do Carrefour e cuja família fundou o GPA, fala com a experiência de quem está há mais de 50 anos no varejo. Outros especialistas também fazem ressalvas.

Para Sofia Esteves, presidente do grupo DMRH e da Cia. de Talentos, um ambiente altamente competitivo gera desmotivação. Já Marco Túlio Zanini, diretor da consultoria Symbállein e professor da EBAPE/FGV, diz que é difícil incentivar a competição quando se depende da interação e do trabalho de outras equipes.

Mas isso significa o fim da competição? Ao contrário. O ser humano, explicam os especialistas, é competitivo por natureza. E isso pode ser bom para a empresa, desde que ela saiba incentivar uma disputa que seja saudável e, portanto, lucrativa para os negócios. Esse tipo de competição ocorre, por exemplo, quando o colaborador não se acomoda e quer buscar sempre resultados melhores em sua área de trabalho.

Isso acaba impulsionando o grupo a se superar, o que traz muitas vantagens, como o aprimoramento de processos. Mas para isso acontecer de forma sustentável e gerar inovações, é preciso haver integração entre os colaboradores.

Em um segmento nervoso e dinâmico como o varejo, isso é ainda mais essencial. Daí a recomendação dos consultores em desenvolver o chamado Team Building. Nele, as pessoas trabalham ajudando umas às outras e mantendo interesse pelas atividades alheias. Outro ponto importante para garantir uma competição saudável é definir regras claras e transparentes que irão nortear o cumprimento dos objetivos estabelecidos.

A ideia é colocar todas as equipes em nível de igualdade e de condições de competição. “Uma loja do sertão nordestino não consegue alcançar um resultado igual ao de outra que fica em um bairro nobre de São Paulo”, diz Sofia.

Também é importante que os gestores não estimulem a conquista do resultado a qualquer custo, mas, sim, respeitando espaços e diferentes características. Os objetivos devem ser alcançados de forma sólida e sustentável, sem prejuízo dos colegas e da própria empresa. Uma forma de incentivar esse comportamento é trabalhar com bônus coletivo. Essa ferramenta é defendida pelo empresário Abilio Diniz, que vê nela uma forma de estimular o trabalho colaborativo.

Também para gerar cooperação e sinergia, Zanini, da FGV, sugere que os supermercados estabeleçam indicadores de desempenho por áreas. “Raramente, as contribuições individuais são identificadas. Mas isso não descarta a necessidade de reconhecer mérito.”

Já a consultora Sofia explica que a premiação não pode ser igual para todos. Imagine uma rede que vai pagar bônus pelo cumprimento da meta de elevar o faturamento da empresa como um todo. Nem todas as lojas vão contribuir da mesma forma para o resultado, já que elas têm portes diferentes e atendem clientes com perfis distintos. Nesse caso, é possível segmentar as filiais, por exemplo, por número de funcionários. Quem tem mais colaboradores recebe uma premiação maior.

Promover a competição saudável exige determinação das empresas. É preciso monitorar para saber se a disputa não está ultrapassando limites. Afinal, há sempre alguém que vai tentar burlar regras em benefício próprio. O líder deve conferir e validar as etapas do processo e verificar como os resultados foram atingidos. “O gestor não pode, só no final do processo, descobrir que houve problemas e que a equipe estava em conflito”, ressalta Sofia, do DMRH. Para ela, o futuro deverá ser mais colaborativo e menos competitivo.

A competição é saudável quando…

• A companhia tem um propósito, ou seja, um objetivo que faz as pessoas competirem para que, no final, todos se beneficiem (colaboradores e empresa)
• As regras são transparentes
• Todos os envolvidos competem no mesmo nível de condições e igualdade
• Há colaboração e a equipe inteira sai ganhando
• Existem vários níveis de premiação conforme as metas são atingidas

Fonte: Sofia Esteves e Marco Zanini, consultores de RH

A competição é ruim quando…

• Trata-se de jogo de carta marcada: o vencedor já é conhecido antes de a competição começar
• Há muitos conflitos entre as pessoas
• A ética passa longe e o indivíduo utiliza meios questionáveis para vencer
• O funcionário trabalha isolado e se nega a compartilhar dados e informações
• A vaidade faz com que o profissional passe por cima dos colegas para receber as premiações

Fonte: Sofia Esteves e Marco Zanini, consultores de RH

Boas práticas

Informe e dissemine o DNA da sua empresa. Quando os funcionários entendem seus valores e sua cultura, a produtividade cresce e todos colaboram para uma única causa.

Promova uma reunião entre áreas envolvidas no processo. A ideia é tomar decisões em conjunto, pois, assim, toda a cadeia trabalha para levar a companhia ao sucesso.

Estimule as equipes que se destacam, mas não em detrimento de outras.

Antes de pensar em competição, a empresa tem de fazer um exercício anterior: planejar como ter sucesso com determinada iniciativa.

Comunicação e alinhamento entre as áreas são fundamentais para o bem do negócio.

Fonte: Supermercado Moderno