Engana-se quem pensa que o salário é o principal motivador das saídas

Há cada vez mais colaboradores trocando de emprego. Segundo um estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), houve um aumento de 82% nas taxas de turnover voluntário de profissionais brasileiros entre 2010 e 2013 – nos demais países, esse aumento ficou em torno de 34%.

E, do lado das empresas, o impacto da saída de um profissional (acima do nível operacional) representa um custo de 93% a 200% do salário anual daquele posto — nessa conta estão inclusos os gastos para recrutar, contratar e treinar o colaborador.

Engana-se quem pensa que o salário é o principal motivador das saídas. Ausência de um plano de carreira, falta de reconhecimento e desconexão com os valores e cultura da empresa são alguns dos principais motivos. Esses foram alguns dos resultados de uma pesquisa elaboradora por Manoela Ziebell de Oliveira, líder da prática de análise de turnover da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira, e professora da PUC-RS.

Comunicação clara

Depois de entrevistar cerca de 900 profissionais de empresas e cargos diferentes, ela constatou que os profissionais tendem a ficar em companhias nas quais se sentem desafiados e estimulados a desenvolver suas carreiras.

“Só o salário não é o fator de retenção”, afirma Manoela. Segundo ela, se a empresa conseguir ter uma conversa clara com os profissionais e sinalizar as expectativas que a companhia tem em relação a ele e a sua carreira, ela consegue fazer com que os profissionais peçam menos demissão.

Muitas companhias apostam em um pacote de benefícios atrativo e se esquecem de que muitas empresas oferecem o mesmo. “Isso é o básico”, diz Willian Bull, sócio-consultor do Instituto Pieron. Segundo ele, benefícios como plano de saúde, bolsa de estudo e oferta de carro não são mais diferenciais como prática de mercado, a empresa tem de se preocupar em fazer com que o profissional se sinta parte da companhia e compartilhe os valores e cultura empresariais.

“A ideia não é retê-lo e, sim, engajá-lo”, reforça Bull. O consultor acredita que a palavra retenção já está fora de moda. “Retenção é aprisionamento. Temos de falar sobre engajamento”, afirma.

O tamanho do desafio

Para Bull, o que mais retém um profissional na empresa é o tamanho do desafio que ele tem no exercício da sua profissão. Contudo, alerta, esse estímulo deve ser compatível com as capacidades e competências do colaborador.

Além disso, diz, o desafio reforça a questão do significado do trabalho, ou seja, o profissional tem de ver sentido no que faz e compartilhar os valores da companhia.

Papel do RH

Para reter os profissionais e, mais importante, engajá-los, é essencial que se tenha uma área de RH que saiba investir em ações estratégicas claras e alinhadas com o board da companhia. “A área precisa refletir estrategicamente as possibilidades e discuti-las com seus funcionários”, diz Juliana.

Segundo ela, o papel dos gestores também tem impacto nesse quadro. “Ter uma liderança alinhada com suas equipes e com comunicação constante e eficaz é fundamental”, ressalta.

De acordo com Manoela, da Produtive, as empresas precisam prestar atenção nos aspectos organizacionais (aqueles relacionados a como o profissional se sente na empresa e quais suas perspectivas de carreira).

“A capacidade da companhia em sinalizar para o profissional o que se espera dele e se ele vai conseguir alcançar seus objetivos de vida e carreira dentro na empresa é um dos fatores importantes para a pessoa querer ficar ou sair da companhia”, explica.

São ações simples e que não custam muito para a companhia. “A remuneração pesa, mas uma conversa clara com o funcionário sobre carreira vale muito a pena”, ressalta. E nesse aspecto a liderança é essencial.

Fica claro que mais do que bons salários e um pacote de benefícios atrativo, a empresa deve apostar em conversas claras e em proporcionar aos funcionários desafios de acordo com a capacidade desses profissionais.

Empresas que oferecem um pacote com os fatores mencionados, valores consistentes e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, já saem na dianteira na corrida da retenção de talentos.

Fonte: Supermercado Moderno