Josué Evangelista tem 41 anos de idade e a primeira vez que experimentou uma tapioca foi só há sete anos. Mas quis o destino que essa iguaria nordestina, descoberta ao mesmo tempo em que os portugueses chegavam ao Brasil, mudasse a vida de Evangelista e fizesse dele um empresário bem-sucedido com a empresa Da Terrinha.

Mas, para hoje se contar essa trajetória, é preciso voltar quase três décadas no tempo, até o ano de 1988. Evangelista era uma criança de 14 anos, de família pobre, que já havia trabalhado na roça, em Minas Gerais, terra de seus pais, e que, em São Paulo, começava a trabalhar em supermercado como empacotador para ajudar nas despesas de casa.

“Éramos em dez irmãos. Muitas bocas para comer. Eu tinha que trabalhar para ajudar a colocar comida na mesa”, lembra Evangelista, que trabalhou por 12 anos na mesma rede supermercadista, até o dia que ela foi vendida e o seu departamento não foi absorvido pelo novo proprietário. “Em poucos dias, consegui emprego em nova rede supermercadista – Ricoy – e lá fiquei mais oito anos, quando pedi demissão e abri uma empresa de representação comercial”, conta Evangelista.

Ele trabalhou no extinto supermercado Reimberg, que ficava no mesmo bairro em que está a fábrica hoje. A rede foi vendida para o Pão de Açúcar no ano de 2000

O jovem empresário não teve um começo promissor em seu primeiro negócio. Ele lembra que foi ser representante de marcas de carnes e achou que ia vender fácil, não só pela qualidade do produto, mas também pelas amizades que tinha no setor supermercadista. “Só que foi uma sequência de ‘nãos’. Demorou até o negócio dar certo”, relata Evangelista, dizendo que depois de superadas as dificuldades, ele começou a ganhar um bom dinheiro e estava feliz com sua empresa de representação comercial. Mas aí surgiu a tapioca em sua vida.

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Da carne para a tapioca

Em 2009, com a empresa de representação indo muito bem, Evangelista conheceu o proprietário de uma pequena empresa fabricante de goma para tapioca e passou a representá-la também. Naquele momento, ele já trabalhava com 12 marcas de produtos, mas viu na tapioca uma novidade de mercado nas regiões Sul e Sudeste, ao ponto de virar consumidor do produto e um “embaixador” da tapioca aonde quer que fosse. Não bastasse, largou as suas outras representações para se dedicar apenas àquele alimento.

Em pouquíssimo tempo, Evangelista virou sócio da empresa e investiu capital para que ela crescesse e pudesse atender mais regiões e mais pontos de venda. Porém, logo a sociedade foi desfeita e o empresário viveu um dilema: voltar a fazer representação comercial ou abrir uma fábrica de goma para tapioca? Ele escolheu a segunda opção e abriu a empresa Da Terrinha, na cidade de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

“Comecei a empresa com máquinas financiadas, em casa alugada e com cinco funcionários. Eu não tinha capital guardado, eu não tinha nada”, admite Evangelista. Na época, o empresário já era casado, pai, e sabia o quanto era importante estabilidade e segurança – coisas que iam totalmente contra o seu investimento e sua dedicação no segmento de tapioca. “Se hoje a tapioca é conhecida no Brasil inteiro, existem empresas fabricantes da goma para a tapioca no país todo, tenho certeza de que muito disso é pelo trabalho que comecei, sete anos atrás”, orgulha-se.

Mas um mercado consumidor não se constrói do dia para a noite, tampouco uma indústria. Então, por mais que Evangelista investisse todo o dinheiro que ganhava com a venda da goma para tapioca na própria fábrica, a empresa não saía do vermelho. “Eu vendi apartamento, carro, limpei o dinheiro que tinha na conta, ainda assim não conseguia estruturar a empresa”, conta o empresário que chegou a vender a própria casa e comprar uma bem menor e mais simples, dentro de uma comunidade, e foi lá morar com a esposa e os filhos, sem móveis, sem qualquer tipo de conforto.

“Quando chegava o fim de semana eu só comemorava o fato de menos credores me ligarem. Cheguei a dever R$ 2 milhões e não ter nenhuma condição de pagar”, relata Evangelista. “Em um domingo, quando a noite chegou, angustiado com tantas dívidas, pedi a Deus que, quando eu dormisse, não permitisse eu acordar na segunda-feira, porque eu não sabia mais o que fazer para sair daquela situação”, confessa.

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O empresário não deixava que ninguém soubesse de sua real situação e de todas as suas angústias. Apenas a esposa e alguns parentes sabiam as dificuldades que ele estava enfrentando para manter a empresa Da Terrinha funcionando. Ele pensou em abandonar tudo e voltar a ser empregado de alguém, mas não o fez. O empresário chegou a chorar algumas vezes no silêncio de sua casa e horas depois estar na fábrica trabalhando e motivando os outros. A Da Terrinha iria crescer.

“Naquela época, tive certeza de que riqueza, status, luxo, tudo isso é besteira. Eu saía à rua para vender a goma para tapioca e não tinha dinheiro para pôr gasolina no carro e almoçar. Fazia uma coisa ou outra. Então, colocava gasolina no carro”, explica Evangelista. Para sair de tamanho caos, além de trabalhar quase 24 horas por dia, mudou a fábrica para a zona sul de São Paulo, para pagar aluguel mais barato e cortou centavos que pudesse em todas as suas despesas. “Eu não sabia mais o que fazer.”

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A redenção

Com tanto trabalho, os frutos começaram a aparecer. Uma grande rede supermercadista comprava a goma de tapioca Da Terrinha. Artistas deram entrevistas dizendo que adoravam tapioca, ensinando como fazer, falando de como o produto era saudável e, por algumas vezes, a embalagem Da Terrinha apareceu na TV, de forma totalmente involuntária e gratuita. O número de pedidos de compra do produto que Evangelista fabricava foi aumentando, ao ponto de ele nem ter matéria-prima para fabricar tanta goma. “Eu cheguei na fábrica um dia e não havia nem matéria-prima nem dinheiro”, lembra Evangelista.

Foi aí que um fornecedor lhe ofereceu uma quantidade bem maior de matéria-prima que Evangelista estava acostumado a comprar. Esse fornecedor já até havia recebido dele um cheque sem fundos, por total falta de condições financeiras do empresário – não por má-fé. Mas o fornecedor acreditou em Evangelista e em sua empresa, mais uma vez, e o ajudou na compra de dois caminhões de fécula de mandioca. “Aquilo parecia uma loucura para alguém que não conseguia dinheiro para pagar tantas despesas, mas foi a última tentativa de fazer a Da Terrinha dar certo. E deu”, afirma Evangelista.

“Comecei a fabricar e vender muito mais – consequentemente, comecei a pagar todos os meus credores. Daquele dia em diante, nunca mais me faltou matéria-prima. A Da Terrinha tem, atualmente, 400 funcionários, diretos e indiretos, e produz 60 toneladas de goma para tapioca por dia. Ela comercializa apenas dois SKUs, o pacote de 500 gramas e o de 1 quilo.

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“Existem inúmeras possibilidades de receitas com a goma para tapioca. Eu não preciso, agora, de novos produtos, mas sim que os consumidores conheçam essas inúmeras possibilidades”, garante Evangelista, que já exporta para países como Portugal e Estados Unidos e está para fazer a sua primeira exportação para a China.

Evangelista valoriza cada pessoa que o ajudou nessa caminhada. Cita os familiares e amigos, tem gratidão por muita gente, mas enfatiza que Deus foi fundamental. “Há dias que estou a sós com a minha esposa, relembrando o que passamos, as dificuldades, os momentos mais críticos, e agora o momento de franco crescimento que a empresa está vivendo. A gente se emociona e eu só acho uma explicação para isso: Deus é maravilhoso”, conclui.